sábado, 9 de janeiro de 2010

Resenha do filme "Tempo de Matar" enviada pela internauta Heloisa Helena Quaresma,
Advogada em Brasília (DF).



TEMPO DE MATAR

John Grisham


Baseado na obra de John Grisham, autor de outros filmes que dividem a opinião pública a respeito do racismo norte-americano. Em uma pequena cidade do Estado do Mississipi, dois rapazes (brancos) embriagados correm com uma caminhonete, jogando garrafas num moço negro. Criam caso em mercearia de afro-americanos. Violentam e espancam covardemente uma criança negra, de 9 anos de idade, Tonya, que, encontrada, foi internada, em estado de choque.

Presos horas depois, os criminosos são surpreendidos pelo pai da menina, Carl Lee Hailey, negro injustiçado, prevendo que iria vingar a violência feita contra sua filha, incrédulo da justiça dos brancos, procurou advogado, pedindo ajuda, ainda antes de consumar a vingança, avisando que tomaria providências. Desconfiado de que a justiça absolveria os moços que estupraram sua filha, o pai da menina assassina-os em pleno tribunal. Feriu também um policial, cuja perna será posteriormente amputada.

Contratado para a defesa de Carl Lee Hailey, o jovem e intrépido advogado Jake Brigance, idealista que enfrenta toda a sorte de perseguições vinda dos setores mais conservadores da cidade, principalmente a ira dos racistas, sulistas chauvinistas que aderiram à seita Ku Klux Klan, o medo de seus familiares e amigos e até a parcialidade do juiz do caso, recebendo, por outro lado, a inesperada ajuda da idealista Ellen Roark, estagiária que busca na causa solução para suas atribulações existenciais. O filme ainda conta com um promotor público preocupado com os dividendos políticos que colheria no caso.

Grupos de defesa de direitos civis sugerem que o criminoso mude de advogado. Em atitude firme, mantém-se aliado do jovem causídico, que busca conselho com um advogado que bebia, que fora seu professor, e que estava impedido de atuar em juízo, certamente por problemas decorrentes do alcoolismo. As pressões fazem com que a mulher do advogado e sua filha deixem a cidade. Dada a dificuldade em se constituir corpo de jurados imparcial, tenta a defesa desaforar o feito.

O juiz chama o defensor do assassino em sua casa, adiantando que indeferirá o pedido, de certa forma deixando entender que não é simpático às teses da defesa. Tumulto ocorrido em frente ao tribunal caracteriza tensões sociais que o processo suscita. Um membro da Ku Klux Klan é queimado vivo, atingido por um coquetel. A casa do advogado de defesa é queimada. Os jurados tendem a condenar o réu, que morreria na câmara de gás. Policial ferido testemunha em favor do acusado. Descobre-se que médico que fizera avaliação do mesmo, dizendo-o inimputável, fora condenado por estupro.

A condução do processo, fio central da narrativa, indica que a condenação do réu é iminente. Não há mais recursos técnicos, que possam alterar ao desdobramento dos acontecimentos.

O advogado de defesa, que é branco, intui que deve pensar como membro da classe dominante. Sem mais argumentos jurídicos, restam-lhe recursos de retórica. Deve convencer o corpo de jurados, discursando como falaria para convencer a si mesmo. Pede que fechem os olhos e narra o estupro da filha do réu, passo a passo, com impressionante riqueza de pormenores. Quando da conclusão de sua fala, pede que imaginem que a menina violentada é branca e em seguida ordena que abram os olhos. A comoção é geral.

O recurso de oratória utilizado foi eficiente e o réu foi inocentado. Não havia regras específicas que protegessem o acusado, que foi socorrido por artificial construção argumentativa, determinante de reflexões em torno do compromisso do orador com a verdade.

A obra trata de conflitos sociais, racistas, em ambiente de muita tensão, que a jurisprudência norte-americana estigmatizou como discurso da década de decisão.

TEMPO DE MATAR mostra na contramão vários assuntos de nosso interesse: a coragem do verdadeiro advogado, que, mesmo sob ameaças e violências a seus familiares e amigos, arrosta os perigos de sua profissão, em nome de uma causa; a estrutura das carreiras do Ministério Público e da Magistratura dos Estados Unidos, cuja vinculação política retira a imparcialidade e a independência de seus membros, ensejando julgamentos tendenciosos, nos quais a busca da verdade nem sempre é o norte a perseguir; certa corrupção, indireta, o chamado lado escuro da tradição jurídica ocidental; o odioso racismo ainda emergente na sociedade americana, manifestado de modo violento e nem sempre dissimulado. A estória se desenvolve no tribunal, com lances inesperados e uma bela argumentação final do advogado.

O grande destaque jurídico é a uma das alegações finais do advogado de Carl Lee, o brilhante Jake Brigance, quando exorta os jurados à seguinte reflexão:

Que parte nossa deverá buscar a verdade? Nossa mente ou nosso coração? Ele tenta provar que um negro podia ser julgado com justiça. Para que todos fossem iguais aos olhos da lei. E concluiu que não é verdade, porque os olhos da lei são humanos. Como os de meus e os seus. E até podemos nos ver como iguais, a Justiça nunca será imparcial. Ela continuará sendo um reflexo de nossos preconceitos. Até lá, temos o dever, diante de Deus, de buscar a verdade. Não com nossos olhos, com nossas mentes, porque o medo e o ódio fazem surgir o preconceito do convívio, mas com nossos corações, onde a razão não pode mandar.


3 comentários:

Anônimo disse...

Oi eu tenho que fazer um trabalho sobre esse filme , mas eu nao entendi pq o policial que levou um tiro na perna era a favor da liberdade de Carl Lee . obrigada desde já e asim que puder me respinde (: - gabi

Vyctória C. disse...

Porque ele também tinha uma filha, e se ele estivesse no lugar de Carl Lee ele faria a mesma coisa, ele sabia que Carl não queria que ele saísse ferido ;D Espero ter ajudado ...

Anônimo disse...

Ele era amigo de infância de Call Lee,assim ficando totalmente a favor do amigo,sabendo que com toda a certeza jamais faria isso por vontade ou até mesmo de propósito.