domingo, 21 de outubro de 2007

Tiros disparados contra helicópteros civis nos céus do Rio fazem aeronáutica estudar a mudança das rotas



AZIZ FILHO - PELO MENOS SEIS HELICÓPTEROS FORAM ATINGIDOS POR DISPAROS, SEGUNDO O SINDICATO NACIONAL DOS AERONAUTAS. PILOTOS EXIGEM MUDANÇAS IMEDIATAS

Pela primeira vez na história do País, o Departamento de Controle de Espaço Aéreo (Decea), do Ministério da Defesa, recebeu o registro de uma aeronave civil atingida por tiros de fuzil nos céus do Brasil. Um helicóptero modelo AS-365, de uma empresa de táxi aéreo, foi atingido enquanto realizava um vôo sobre o Complexo da Maré, próximo ao Aeroporto Internacional Tom Jobim - Galeão, na zona norte do Rio. A gravidade do ataque levou os militares do Conselho Nacional de Prevenção de Acidente a reunirem-se em Brasília e decidir: a Força Aérea Brasileira poderá alterar as rotas da aviação para evitar que aeronaves voem pelas áreas dominadas pelo narcotráfico. A violência na região, que vitimou 41 pessoas este ano, fez os policiais cariocas apelidarem a região de "Faixa de Gaza".
O acidente na Maré, guardado como segredo militar, foi o único registrado até agora no Decea, mas, na reunião de Brasília, o Sindicato Nacional de Aeronautas relatou ter conhecimento de que outros seis helicópteros, quatro na capital e dois em Macaé (norte fluminense), teriam sido atingidos por disparos. A única alteração das rotas aprovada até agora, que deverá ser implementada na quarta-feira 28, foi motivada por uma solicitação do Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007, que quer as aeronaves longe da competição e do repouso dos atletas.
Enquanto a Aeronáutica trata o assunto intramuros, os pilotos de helicóptero vivem dias de tensão. O assessor de Segurança de Vôo do Sindicato das Empresas Aéreas, comandante Ronaldo Jenkins, acredita que o Estado-Maior da Aeronáutica irá atender à solicitação dos pilotos cariocas e alterar os corredores visuais dos helicópteros para evitar áreas de risco. Corredor visual ou aerovias é uma espécie de avenida na qual as aeronaves são operadas sem instrumentos automáticos de vôo, a cerca de 300 metros de altitude. Jenkins pondera que os pilotos que conhecem bem a capital carioca, especialmente os de vôos panorâmicos, não correm o menor risco porque sabem onde podem ou não voar mais baixo. "Há opções para evitar as áreas de risco mesmo dentro dos corredores aéreos atuais", avalia Jenkins. O perigo maior seria para pilotos de fora do Rio, que podem voar baixo demais nas rotas que hoje passam por cima das áreas de risco. "Em função do relato dos pilotos, foi iniciado um estudo para conferir a extensão do problema. O Comitê pediu mais informações ao Decea e à Secretaria de Segurança Pública do Estado", disse o major Adolfo Aleixo, do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica.
O perigo de sobrevoar a "Faixa de Gaza brasileira" turbina a polêmica sobre a força do narcotráfico no País. Afinal, se as Forças Armadas chegam a mudar o mapa aéreo de parte do território nacional - ameaçado pelas mesmas quadrilhas que desafiam a soberania do Estado -, como os militares poderão lavar as mãos no combate às conseqüências do tráfico de drogas e armas? Mesmo diante de tantas mortes e do perigo real de voar sobre as favelas, muitos militares não acreditam que o poderio militar dos narcotraficantes possa representar riscos para a aviação civil, especialmente aviões de carreira. "Pensar que aviões serão atingidos por balas de fuzil é um delirium extremus. As áreas são pequenas e, mesmo se fossem áreas enormes infestadas de atiradores de elite, seria muito difícil mirar e atingir os alvos", diz um coronel da Aeronáutica, piloto com 7.500 horas de vôo.
O responsável por Segurança de Vôo do Sindicato Nacional dos Aeronautas, comandante Célio Eugênio, que levou a questão ao Comitê da Aeronáutica, também não vê sentido em imaginar que o tráfico possa oferecer riscos a aviões de carreira, mas, com helicópteros, é diferente. Além de voarem bem mais baixo e a velocidades menores, eles podem ser confundidos com aeronaves da polícia. A principal preocupação dos pilotos é com as favelas da Maré e do Alemão, nas proximidades do Galeão, onde são obrigados a esperar o sinal verde da torre de controle para cruzar a rota dos aviões que chegam ou saem da cidade. No acidente oficialmente informado ao Decea, havia dois pilotos no helicóptero, um deles em treinamento. Quando se aproximaram do Galeão, receberam da torre orientação para fazer uma curva para aterrissagem em direção a uma das áreas mais perigosas da chamada "Faixa de Gaza".

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